Humanidades

Crianças e adolescentes 'viajam' mais quando o controle mental falha, aponta revisão internacional
Capacidade de memória de trabalho aparece como fator central para manter a atenção; evidências sobre inibição e flexibilidade cognitiva ainda são fragmentadas
Por Laercio Damasceno - 01/02/2026


Domínio público


Um fenômeno cotidiano — a mente que se afasta da tarefa e deriva para pensamentos internos — ganhou contornos científicos mais nítidos em um amplo estudo internacional publicado nesta semana. Uma revisão sistemática conduzida por pesquisadores da Universidade de Patras, na Grécia, indica que crianças e adolescentes apresentam mais episódios de devaneio mental quando suas funções executivas, especialmente a memória de trabalho, são menos eficientes.

O levantamento analisou dez estudos empíricos, selecionados entre 750 artigos científicos, e reúne dados de crianças e jovens de até 20 anos. As chamadas funções executivas — conjunto de habilidades cognitivas que inclui memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva — são responsáveis por manter o foco, regular impulsos e adaptar o comportamento a diferentes demandas. Quando essas engrenagens falham, a atenção tende a se dispersar.

“O principal achado é que a memória de trabalho aparece de forma consistente como um fator protetor contra o devaneio mental”, afirma Ioannis G. Katsantonis, professor do Departamento de Educação da Universidade de Patras e autor principal do estudo. “Crianças e adolescentes com maior capacidade de manter e manipular informações na mente tendem a se distrair menos durante tarefas cognitivamente exigentes”.

Um tema antigo, uma nova lente

Embora o “mind wandering” seja objeto de interesse desde meados do século 20, a maior parte das pesquisas se concentrou em adultos. Estudos recentes estimam que a mente humana divague entre 30% e 50% do tempo em vigília. Em crianças e adolescentes, porém, as evidências ainda eram dispersas.

A revisão publicada agora preenche parte dessa lacuna ao reunir resultados de diferentes métodos — questionários, tarefas comportamentais e medições fisiológicas, como a dilatação da pupila — para compreender como o desenvolvimento cognitivo influencia a atenção. O trabalho dialoga com teorias clássicas da psicologia cognitiva, como a “hipótese da falha executiva”, segundo a qual o devaneio reflete lapsos no controle mental.

“Na infância, as funções executivas ainda estão em formação. Isso torna o sistema de atenção mais vulnerável a interrupções internas”, explica Argyrios Katsantonis, coautor do estudo e também pesquisador da Universidade de Patras. “Na adolescência, o quadro muda: o devaneio passa a refletir oscilações dinâmicas no uso dos recursos cognitivos, não apenas falhas”.

Impacto na escola e na saúde mental

Os resultados têm implicações diretas para o ambiente escolar. Parte dos estudos analisados mostra que episódios frequentes de pensamento fora da tarefa estão associados a pior desempenho acadêmico, maior sensação de tédio e dificuldade de engajamento em sala de aula.

Em crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), a relação é ainda mais delicada. Um dos trabalhos revisados indica que dificuldades de memória de trabalho e controle inibitório estão ligadas a níveis mais elevados de devaneio, embora os autores ressaltem que os efeitos variam conforme a idade e a gravidade dos sintomas.

Domínio público

“O devaneio não é, por si só, um problema”, pondera Ioannis Katsantonis. “Ele pode favorecer a criatividade e a reflexão. O desafio é entender quando ele se torna excessivo ou prejudicial, especialmente em contextos que exigem atenção sustentada”.

Evidências ainda fragmentadas

Apesar da centralidade da memória de trabalho, o estudo aponta que as evidências sobre controle inibitório e flexibilidade cognitiva são inconsistentes. Em algumas pesquisas, maior capacidade de inibição esteve associada a menos distrações; em outras, não houve relação significativa. Já a flexibilidade cognitiva — habilidade de alternar entre tarefas e perspectivas — aparece como um possível regulador do equilíbrio entre atenção interna e externa, mas carece de investigações mais robustas.

Para os autores, a diversidade de métodos e a ausência de estudos longitudinais dificultam conclusões definitivas. “Ainda não sabemos se o devaneio é causa ou consequência das variações nas funções executivas”, afirma Argyrios Katsantonis. “Essa é uma questão em aberto que exige pesquisas de acompanhamento ao longo do desenvolvimento”.

A revisão conclui que compreender o devaneio mental na infância e adolescência é essencial não apenas para a psicologia cognitiva, mas também para políticas educacionais e estratégias de intervenção. Treinos de memória de trabalho, ajustes no ambiente escolar e métodos de ensino mais compatíveis com o desenvolvimento cognitivo podem ajudar a reduzir distrações prejudiciais.

“O que mostramos é que a mente que vagueia não é um defeito moral nem simples falta de esforço”, resume Ioannis Katsantonis. “Ela reflete o estágio de desenvolvimento do cérebro e a forma como os recursos cognitivos são distribuídos”.


Se quiser, posso adaptar o texto para um tom ainda mais editorial, reduzir para versão de chamada de capa, ou acrescentar dados comparativos com o contexto brasileiro.


Detalhes da publicação
Mapeando a relação entre funções executivas centrais e devaneio em crianças e adolescentes: uma revisão sistemática.
Ioannis G. Katsantonis e Argyrios Katsantonis, J. Intell. 2026 , 14 (2), 20;
https://doi.org/10.3390/jintelligence14020020  (DOI registrado) - 31 de janeiro de 2026

 

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